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esclerose múltipla

Sinais e Sintomas

A Esclerose Múltipla é uma doença com sinais e sintomas muito variados, ou seja, duas pessoas diagnosticadas com EM podem ter sintomas completamente diferentes uma da outra, mesmo que o seu tempo de evolução ou atividade da doença seja semelhante.  O curso clínico da EM é imprevisível, ou seja, os sintomas ocorrem a qualquer momento e sem aviso, embora em muitos casos o médico consiga estabelecer quais portadores têm maior atividade (mais probabilidade de surtos) ou menor atividade da doença (menor probabilidade de surtos) em determinado momento. Além disso, suas manifestações podem ser muito semelhantes aos de outras doenças neurológicas, o que justifica a dificuldade do diagnóstico.

De modo geral, os chamados surtos (sintomas neurológicos agudos) ocorrem em episódios, que se instalam repentinamente, podem piorar de intensidade por um determinado período (alguns dias), voltando a diminuir em seguida. As alterações visuais, de sensibilidade, da força muscular, coordenação ou equilíbrio são as mais comuns e as que ocorrem mais precocemente. Os distúrbios esfincterianos (urgência ou retenção urinária), embora importantes, são menos frequentes no início da Esclerose Múltipla. Para ser considerado surto, o sintoma deverá persistir por um período mínimo de 24 horas, na ausência de alguma infecção no organismo.

Usualmente, os pacientes recém-diagnosticados tendem a considerar cada nova sensação como um novo surto e o reaparecimento de queixas prévias podem assustar. As flutuações que ocorrem ao longo do dia, com períodos de piora das manifestações neurológicas, embora sejam desconfortáveis, não caracterizam um novo surto. Existem vários fatores que podem causar o reaparecimento destes sintomas, como infecções e atividades que causem o aumento da temperatura do corpo, como os exercícios físicos, ambientes muito quentes, fatigabilidade, entre outros. É importante que na presença de uma queixa neurológica que dure mais de 24 horas, seja ela nova ou a piora de um sintoma pré-existente, o paciente entre em contato com o seu neurologista para que a suspeita seja ou não confirmada. Começar o tratamento precocemente é fundamental para prevenir a ocorrência de sequelas neurológicas.

As manifestações mais comuns da EM são:

• Fadiga (fraqueza ou cansaço)

• Sensitivas: parestesias (dormências ou formigamentos); nevralgia do trigêmeo (dor ou queimação na face)

• Visuais: neurite óptica (visão borrada, embaçada ou perda visual), diplopia (visão dupla)

• Motoras: perda da força muscular, dificuldade para andar

• Ataxia (falta de coordenação dos movimentos): tonturas e desequilíbrio

• Esfincterianas: dificuldade de controle da bexiga (retenção ou perda de urina) ou intestino

• Espasticidade (rigidez muscular)

• Cognitivos: problemas de fala e memória ou alterações do humor

 

 

Fadiga: A fadiga é o sintoma mais comum da EM, relatado por cerca de 50% a 90% dos pacientes. Esse sintoma pode se apresentar de diversas maneiras: sendo classificado em primário, ou seja, causado pela própria atividade da EM, ou secundário, quando é causado por outros sintomas da doença, como espasticidade, alterações do sono, do humor ou também do efeito da medicação utilizada no seu tratamento. A fadiga também ocorre durante tarefas que exijam atenção prolongada, mesmo que não ocorra fadiga física, e em geral é agravada pelo calor. Pode estar presente em qualquer momento ou forma clínica da doença, sem correlação com incapacidade física ou cognitiva. A piora ou surgimento de fadiga não é considerado como um novo surto de EM.

Parestesia (formigamento ou dormência nos membros): É uma queixa comum, tanto como sintoma inicial da doença quanto em sua fase evolutiva. Como todos os demais sintomas, ela pode regredir por completo ou permanecer com intensidade muito menor que a do início do surto.

Alterações da visão: A neurite óptica (inflamação do nervo óptico) é um dos sintomas mais comuns no início da doença. Muitas vezes a neurite ocorre meses ou anos antes das demais manifestações neurológicas. O portador de EM, em geral, descreve o episódio de neurite como embaçamento ou turvação da visão em um dos olhos, precedida ou junto à dor ocular que se acentua com a movimentação dos olhos. Raramente há comprometimento dos dois olhos simultaneamente. Outra manifestação ocular comum é a visão dupla (diplopia), que ocorre quando a motricidade ocular é prejudicada.

Tonturas: Sensação de que os objetos estão girando ou o ambiente esta balançando, provocando geralmente desequilíbrio. Às vezes, a sensação é acompanhada de náuseas e/ou vômitos.

Alterações esfincterianas: Dificuldade de controle urinário e intestinal. A queixa mais comum é em relação ao funcionamento da bexiga, como sensação de bexiga cheia ou vontade de urinar mesmo com pouco volume de urina no seu interior (urgência urinária), ou perda involuntária de urina (incontinência urinária). Com a progressão da doença, a incontinência urinária (urina solta) tende a ocorrer com mais frequência – sendo que mais de 90% dos pacientes apresentam problemas na bexiga após 10 anos do diagnóstico de EM. Os transtornos intestinais ocorrem com menos frequência. Em alguns casos, o neurologista pode achar necessário encaminhar o portador de EM para um especialista (urologista ou gastroenterologista) para melhor avaliação e acompanhamento. Existem diversos exercícios e medicamentos para os problemas urinários. Já os sintomas de constipação (prisão de ventre) podem ser minimizados se o paciente tiver uma rotina que inclua uma dieta rica em fibras (farelos, grãos, frutas frescas, legumes); ingestão de líquidos e rotina em relação ao horário da ida ao banheiro. Apesar de incômodos, esses sintomas, se tratados, podem dar ao paciente uma vida normal.

Alterações cognitivas:  Afetam cerca de 50% a 65% dos portadores de EM. Essas alterações podem ocorrer a qualquer momento durante o curso da doença, mesmo no seu início. A progressão geralmente é lenta, o que contribui para que o problema passe despercebido pelo médico e o próprio portador em muitos casos, sendo por isso importante a opinião dos familiares e outras pessoas que convivem com o paciente. Na maioria dos casos, essas alterações são leves e não interferem significativamente no cotidiano do paciente e em suas atividades diárias. Os sintomas mais comuns dessas alterações são: problemas de memória, lentidão no processamento da informação, dificuldades para manter a atenção. É frequente o relato de dificuldade ou demora para realizar tarefas que antes eram facilmente executadas.

Falta de coordenação motora: Conhecida como ataxia, se manifesta como alterações dos movimentos voluntários (tremores, inabilidade manual, incoordenação), alterações no modo de andar (desequilíbrio, tropeços), dificuldade de articulação das palavras (disartria), tremores involuntários, entre outros.

Espasticidade: Também um sintoma frequente da EM, a espasticidade está associada à rigidez involuntária dos músculos, limitando os movimentos dos membros. As sensações mais descritas são braços e pernas “duros” ou “travados”, ou então “solavancos” em algum grupamento muscular. Ela pode ser desencadeada por movimentos ou por algum estimulo e ocorre por respostas inadequadas do tônus muscular dos pacientes, que ao invés de relaxarem a musculatura, a contraem de forma rápida e involuntária.

Transtornos emocionais: Transtornos do humor, como depressão e ansiedade, são muito comuns nos portadores de EM. Mais da metade dos pacientes apresenta episódios depressivos no decorrer da doença. Além da depressão, outras alterações emocionais também podem ocorrer, como ansiedade, euforia, pessimismo, sentimento de culpa ou desamparo, distúrbios do sono, diminuição ou aumento do apetite, aumento da fadiga, inquietação, irritabilidade, diminuição da capacidade de concentração ou de tomar decisões. Algumas vezes pode ocorrer um quadro importante de instabilidade emocional com choro, mesmo quando o paciente não está triste, ou risos em alguma situação inapropriada; isto é causado por lesões desmielinizantes difusamente distribuídas pelo sistema nervoso. Pacientes que já apresentavam os sintomas de depressão antes de serem diagnosticados com EM são mais propensos a desenvolver um quadro depressivo no decorrer de sua vida com a Esclerose Múltipla. 

Disfunções sexuais: A prevalência de alterações da função sexual em portadores de EM é maior quando comparada à população geral. Os resultados variam de acordo com o grupo estudado ou com a metodologia adotada, mas em todos os casos ela é sensivelmente maior. Cerca de 60% das mulheres e 40% dos homens apresentam algum tipo de disfunção sexual durante o curso da doença. Os sintomas podem ocorrer precocemente, mas são mais comuns nos casos onde a incapacidade é maior ou nas formas progressivas. As disfunções sexuais na EM podem estar relacionadas a lesões em áreas diretamente relacionadas à função sexual (alteração da lubrificação local, distúrbios da sensibilidade genital), a outros sintomas neurológicos (espasticidade, déficit motor), a efeitos colaterais de medicamentos e a questões psicológicas – ou provavelmente seja resultado do conjunto destes fatores.

Em resumo, uma série de manifestações neurológicas pode ocorrer em um indivíduo com Esclerose Múltipla. Muitas vezes, a interpretação e análise temporal de todos eles é complexa, sendo o neurologista o especialista médico mais capacitado para este propósito.

 

Estas informações são recomendações gerais que objetivam expandir o conhecimento sobre a Esclerose Múltipla, mas não substituem a visita do paciente a um neurologista.


Fontes: 1. Pittion-Vouyovitch, S., et al., Fatigue in multiple sclerosis is related to disability, depression and quality of life. J Neurol Sci, 2006. 243(1-2): p. 39-45. 2. Julian, L.J., Cognitive functioning in multiple sclerosis. Neurol Clin, 2011. 29(2): p. 507-25. 3. Celik, D.B., et al., Sexual dysfunction in multiple sclerosis: Gender differences. Journal of the Neurological Sciences, 2013. 324(1-2): p. 17-20. 4. Wilken, J.A. and C. Sullivan, Recognizing and treating common psychiatric disorders in multiple sclerosis. Neurologist, 2007. 13(6): p. 343-54.                2 .Machado S. Recomendações Esclerose Múltipla. (2012). Disponível em: http://neurologiahu.ufsc.br/files/2012/08/Manual-de-recomenda%C3%A7%C3%B5es-da-ABN-em-Esclerose-M%C3%BAltipla-2012.pdf. Acesso em 22 de outubro de 2013.